domingo, 11 de novembro de 2012
um destino de ofélia desprendia-se do musgo das paredes. Kylie Minogue & Nick Cave - Where the Wild Roses Grow
um destino de ofélia desprendia-se do musgo das paredes. um corpo flutuante na ribeira, no fundo do laranjal, uma memória sem tempo, uma memória toda feita de lugar. abandonou a casa à fome da hera. Sem porta trancada, sem despedidas. Sem retorno possível.
sexta-feira, 9 de novembro de 2012
quarta-feira, 7 de novembro de 2012
segunda-feira, 5 de novembro de 2012
A não consciência do Bem e do Mal.
Eram duas mulheres de idades muito diferentes.
Uma deles mostrava reverência perante outra, ouvindo os seus preciosos conselhos.
A mais velha atirava palavras como quem atira pedras.
A conversa prolongou-se, embalada pela luz mórbida do subterrâneo.
Era uma descrição detalhada sobre todas as velhotas de um lar, com pormenores sobre as finaças e família de cada uma delas.
O tom desbragado da mulher mais velha era aterrador.
- A Dona Conceição é muito rica, tem tudo do melhor, e dinheirinho, mas tem dois filhos que a vão ver todas as semanas, o filho até vai às vezes lá almoçar, não vale a pena perderes muito tempo com ela, dali não vem nada, é limpar o quarto e andar.
Já a D. Berta, essa não tem nada, coitada, é um sobrinho que lhe paga tudo, e nem a vai ver, não precisas limpar todos os dias.
Agora a outra, a do fumdo do corredor, tem uma nora que é enfermeira e anda lá sempre a cheirar, aquela que é toda mirradinha, estás a ver?
Ah, falta a do nariz adunco, ui essa, então é assim, tem dois filhos, tem dinheiro, e os filhos têm lá a sua vida, têm bons carros, o filho diz que é engenheiro, e a filha é professora mas da faculdade, durante anos era muito generosa, não tinha netos, e pelava-se por um bocadinho de conversa, mas agora, o filho adoptou um casalinho de irmãos que estavam muito desprezados, olha só te digo, a velha parece que viu o sol pela primeira vez, só fala dos netinhos, é tudo para eles, e para nós acabou-se, portanto olha, não há guito, não há cá leitinho morno nem bolachinhas, julgas que eu sou parva...
A receptora da informação mantinha-se muda, acenando com a cabeça, a cada frase da mulher mais velha.
O mais estranho era o facto de as mulheres agirem como se nada de reprovável estivesse ali, naquele diálogo sórdido, naquela partilha com cheiro a crime.
O mal é a ausência de bem, a não consciência da fronteira entre um e outro, é um território da erosão dos afectos e do sentido de comunidade.
domingo, 4 de novembro de 2012
Na esquina dos dias que findam, espera-nos o regresso da barbárie.
Tenho tentado adormecer-me na poesia, já que a realidade está cada vez mais vulgar, encarniçada e escarnecida.
Exilei-me num canto, que não era nono, e dei à costa num brutal embate entre corpo e rocha.
Que não restem dúvidas, está em causa a civilização. Já não se trata apenas, de um modus vivendi versus outro. Na esquina dos dias que findam, espera-nos o regresso da barbárie, a lei do mais forte, a natureza em tom cruento, sem eufemismo possível.
Desmantelar o estado social é muito mais do que reduzir na despesa, é um projecto social com contornos de abismo.
Desmantelar o estado social não é somente deixar de garantir a saúde tendencialmente gratuita, a educação para todos, as reformas para quem trabalhou e as protecções para grupos específicos, é rasgar o pacto entre os homens, o pacto que evita a ira do esfomeado contra o banqueiro.
É aninhar a raiva e acordar a barbárie.
A evolução física da humanidade retirou-nos força bruta e fomos aperfeiçoando a utilização de outras skills( aptidões, ferramentas) mais apropriadas a vida em comunidade que, julgámos nós, se teria tornado menos hostil.
Mas se se interromper a evolução, constrangendo a humanidade, o instinto de sobrevivência, inerente a todas as espécies que não se abandonam à extinção, voltará a fazer crescer garras no fundo das nossas mãos e os caninos voltarão a afiar-se.
Claro que não será imediato, uma ou duas gerações possuirão ainda skills desadaptadas da realidade, esses transformar-se-ão em presas fáceis, gazelas impotentes.
O mundo em construção é sobretudo um mundo em colapso, uma extinção programada da civilização, os novos bárbaros nada têm de doce e já por aí andam com palavras em forma de pedras lascadas.
sábado, 3 de novembro de 2012
Sia, Lullaby
A casa é sobretudo um lugar dentro de mim onde vocês poderão sempre adormecer tranquilos envolvidos por um longínquo cheiro a lavanda.
( aos filhos)
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