quarta-feira, 24 de abril de 2013

sábado, 20 de abril de 2013

O desprezo e as estrelas. coisas de tempo.

http://www.youtube.com/watch?v=iCSts2M0Yvo




Há um tempo de desatenção, um tempo em que tudo parece ser efémero ou eterno, um tempo da vida a vermelho e negro.
Subitamente o negro devora o azul e o tempo corre lento, matizes cinza e longos aborrecimentos, dias que se repetem, raivas que se derretem na boca,  um tempo sem tempo, onde o tempo é um vocábulo vazio e a pressa um animal voraz.
Chegará, aguardo, um tempo onde o vermelho, o negro, o cinza, o azul, onde todos simplesmente estarão ali para serem contemplados, dias de atenção e um tempo maior que as horas.

segunda-feira, 15 de abril de 2013

A estrada só acaba para aqueles que estancam., e estancar é uma opção tão válida como caminhar.

http://www.youtube.com/watch?v=KqX2rezctMI


De mansinho vamos desenhando no ar as bolhas com que queremos fazer uma casa.
São transparentes as nossas paredes mas os caminhos não se cruzam.
Vislumbra-mo-nos.
De mansinho vamos olhando a hera crescer e cobrir as nossas paredes transparentes.
Desconhecemo-nos.
De mansinho cruzamos a estrada, um caminhando, o outro parado.
Invisíveis.


sexta-feira, 12 de abril de 2013

A dor como vortex.






      Este não é um blogue confessional, no sentido tradicional do termo, aqui não narro as pequenas imensidões dos meus dias.
      Recentemente experimentei uma realidade a que não estava habituada, a dor, a dor como vortex sugador de toda a energia, a dor que nos faz desejar coisas próximas do abismo apenas para se alimentar.
     A dor impede olhar o outro, sentir o outro, escutar o outro, desejar o outro.
     Talvez o mundo seja governado por gente que padece de dores terríveis, talvez por isso, e só por isso,  estejam alheados, como se vivessem sob o efeito de morfina, e fossem incapazes de contemplar a simples existência do outro, só algo assim poderia explicar a incapacidade e a ausência de empatia, quem sente dores assim apenas se quer livrar delas, mesmo que a alma sucumba, mesmo que os outros deixem de existir.

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Redundância atmosférica.

Ryuichi Sakamoto – The Wuthering Heights




Convocaste a tempestade.
Seduziste-a bichanando, cuidavas que o fogo controlado em frente ao teu sofá jamais se levantaria.
Ali ficaste, imóvel, escutando-lhe o ribombar, por trás de uma  lombada, ainda em couro e carmim.
O teu desafio foi olhado pela natureza com desprezo, e agora lavram línguas pelas paredes e lá fora, carpideiras de mil histórias antigas desabam por ti, numa redundância atmosférica.

quarta-feira, 27 de março de 2013

Sabes para onde vais?

David Sylvian – I Surrender




Abrias em mim o sulco da manhã
trazias um tudo nas mãos e caminhavas
perguntei-te vezes sem conta:
-Sabes para onde vais?
- Sei, mas não te digo que é  um lugar só meu.

Fechavas os olhos numa lentidão só tua
guardavas um nada nas mãos e por vezes estavas
 continuei a querer indagar:
- Amanhã segues viagem?
- Agora mesmo estou a caminho do meu lugar.

Abrias em mim a imensidão da noite
soltavas o vento e retomavas o caminho
e eu rendida ao enigma.
- Desta vez já não regressas?
- Se a morte estiver no fundo da estrada, terei então chegado.


domingo, 24 de março de 2013

A morte dos homens.

http://www.guardian.co.uk/commentisfree/2013/jan/23/suicide-rates-men-gender-issue



Um dos temas que me interessa é tentar compreender o que mantém as pessoas vivas.

Umas vivem de amores, outras alimentam-se de ódios, algumas sacrificam-se para manterem vivos os sonhos, as mais tristes vivem para possuir, as mais desalentadas vão vivendo mesmo já não possuindo.

E uma enorme quantidade sobrevive, mesmo sem vontade, mesmo sem objectivos, apesar de todas as contrariedades, algumas pessoas vagueiam pelos dias, embrulhados numa quase morte que os impede de tudo. As circunstâncias podem ser de ordem material ou de ordem espiritual, o efeito é muito semelhante.

Os homens estão mentalmente preparados para se estruturarem de fora para dentro, o trabalho, o reconhecimento social, o sucesso, a conquista, a caça, o fazer da guerra, são alguns aspectos a partir dos quais os homens se projectam e constroiem a sua identidade, claro que estas tarefas podem sofrer metamorfoses e aparecerem revestidas, mas no fundo continuam a ser as tarefas onde a grande maioria dos homens se sentem confortáveis.

Esta crise mergulhou os homens numa ausência de validação que está a transformar a sociedade de uma forma aguda e profunda.

Perdido o eixo do trabalho muito homens constatam o vazio do seu caminhar e não possuiem armas para enfrentá-lo, o vazio engorda e a morte afigura-se como saída.


Milton Nascimento – Anima