segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

é só o tempo a passar. Don't Worry




Nada de incomum.
Uma noite de mesa plena.
Aqui me estendo, me tendo e me entendo.
Uma fogueira contida.
Um cheiro a terra e o ladrar dos cães.
Estamos, ainda, a salvo, num qualquer lado de dentro.

domingo, 30 de dezembro de 2012

A troca (Beirut - A Candle's FIre)







- Se me desses todas as tuas palavras...
- E como poderia fazê-lo?
- Se quisesses as minhas em troca, eu, sem hesitar, o faria.
- És louco.
- Isto não é loucura.
- Trocar de palavras? Então como lhe chamas?
- Lá está, não lhe chamo nada, não tenho palavras para o descrever.
- Que jocoso. E o que farias com as minhas palavras?
- Absolutamente nada.
- Desculpa?
- Silenciar-me-ia.Apenas isso.
- e eu? o que faria eu com as tuas palavras?
- O mesmo.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Da intransponibilidade da montanha.(Madredeus - A Cantiga do Campo (Live)





Guardo a intransponibilidade da montanha por onde nunca fugi.
Rumei ao sul para evitar um murmúrio de pedra e musgo que já principiava a sufocar-me.
Tenho um destino de sal, levanto-me numa vaga e morro em todas as praias e ainda assim, retorno ao mar, que ninguém escapa ao seu destino.



quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Melindrar os afortunados. (Brad Mehldau plays Bittersweet Symphony (Jazz à Vienne 2010)




Em todas as famílias existem uns mais afortunados do que outros, em todas as comunidades é igualmente assim, ou deveria ser, apesar das provas de guetização ( seja ela em condomínios ou em bairros sociais)serem contundentes e inequívocas em atestarem a insalubridade gerada por um convívio exclusivo.
A pluralidade enriquece as pessoas, conhecer e dialogar com pessoas de diversas realidades é um catalisador sináptico, provoca-nos a alma e leva-nos a abandonar a zona de conforto que é o nosso cérebro em modo fechado.
Quando todos os apelos vão no sentido de escutar e compreender os mais fragilizados, aqueles que estão a perder, muito mais do que coisas, aqueles que estão a perder`ânimo e esperança, ainda há quem ache e assuma achar, que os não vitoriosos desta época de náusea, são falhados, e como tal, são profundamente responsáveis pelo seu falhanço. Esta atitude revela uma clausura mental perigosa, proteger os privilegiados dum possível confronto com a realidade crua de quem está a passar por sérias dificuldades, é sustentar o autismo social que se vem instalando na sociedade. Ser afortunado não é em si mesmo um crime ou uma desonra, no entanto convém averiguar a origem dessa fortuna, se for uma fortuna feita de desventuras, então é uma injustiça, mas pode não ser,e então será uma fortuna justa e merecida.
Se os afortunados se melindram ante o rosto despido dos menos afortunados, então não serão merecedores dessa fortuna.

sábado, 22 de dezembro de 2012

Para falar com crianças é sempre melhor inventar algumas palavrasThe King of China's Daughter




Fico muitas vezes a pensar em coisas que me perguntam. ESpecialmente por me sentir destituída de respostas. Construí-me como uma colecção de perguntas, e nunca um manual de instruções.
Ontem, alguém me perguntou acerca da pertinência artística de trabalhar com uma música muito conhecida, um daqueles sucessos virais, que todos os miúdos conhecem, que como tal poderia ser um ponto de partida para estabelecer um diálogo.
Inicialmente julguei que se tratava de uma provocação jocosa, mas rapidamente compreendi que se tratava de uma questão genuína.
Como sou bruta e destemperada, disse de imediato o que pensava, a quente, sem cuidado e sem filtro.
As crianças, sejam elas de que cultura, religião, nível sócioeconómico forem, precisam ser alimentadas com objectos elevados, precisam comer beleza e harmonia, mesmo vivendo entre o feio e a monstruosidade, essa é a verdadeira função de quem educa, ide ler Platão, o livro VII da República!
O diálogo entre educador e criança deve ser propiciador da criação de um espaço para as palavras inventadas, um espaço para recriar o léxico, um dicionário privado, um código que permita o explorar de sons e conceitos que a criança ainda não ousara antes.
Sustentar a ideia de que o diálogo proficuo é aquele em que o lèxico é limitado à partida, pelas fragilidades de um dos interlocutores, corresponde a uma visão redutora do poder do diálogo. Configura uma depreciação das capacidades de aprendizagem de algumas crianças, é um pensamento descriminatório camuflado do seu oposto, condiciona expectativas e limita possibilidades.
APrender é como saborear, o paladar aguça-se com a variedade, a persistência das provas e qualidade dos ingredientes.

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Deamons never sleep, deamons never die, deamons are forever(Angus & Julia Stone - Take You Away)




I told you too many times about my deamons.
I tried to tame them, by they run loose.
My deamons don´t behave.
My deamons spit and spill all over.
I carry my furies as if I was carrying an unborn, they live deep inside my skin, I cannot chase them, nor do I want to, for I'll be needing their help in the days to come.
I bow before my deamons as they bow before the moon.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Morrer é mudar de pele. Os cordeiros sacrificiais também rugem.

E se um dia me perguntarem porquê, saberão que foi por amor.
E se um dia voltar a existir um amanhã e mesmo que de mim só sobrem vestígios de adn, noutros que já não chegue a tocar, saberão que a fúria nasceu da injusta condenação e da impossibilidade em permanecer.
E se um dia, tu, meu filho, ou tu minha filha, quiserem sonhar, desejo-vos campo aberto e estrada farta, que o mundo não se esgota nesta morte, nem neste final.

sábado, 15 de dezembro de 2012

Para te amar.

( Antoní Tapies. Lectura. 1998)



Para te amar desço pelas palavras indizíveis e encontro o teu braço, ali, só o teu braço, sem o resto do teu corpo, ancoro-me no teu braço e a noite cai e a madrugada sucumbe e a manhã é o destino de um amor assim.
Para te amar desço pelas palavras inauditas e morro no teu abraço.
Talvez fosse mais simples amar-te se fosses olhos, se fosses boca, se fosses peito, mas não és, e assim, todos os dias desço as palavras, como quem desce uma calçada, e encontro o teu braço e amo-te.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Este é o novo modelo laboral (Beth Gibbons & Rustin Man - Candy Says @ Paleo 2003




Uma mulher de cinquenta anos desaba na minha frente, a absoluta impotência perante uma vida em lágrimas.
Foi despedida, a escassos dias do Natal, por se recusar a trabalhar oito horas por dia e receber apenas o equivalente a quatro horas, por não se disponibilizar a prestar todo o tipo de apoio, mesmo fora do âmbito das suas funções.
Este é o novo modelo laboral.
Este é o novo mundo, ou talvez seja uma remeniscência de um mundo velho, demasiado velho.
Pede-me uma ajuda que eu não consigo dar e um conselho que eu não sei dar.
Resta um abraço, e uma impotência mais forte que chuva.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

e vê lá lá se não sentes tudo tanto (Evi Vine - In This Moment)






Uma pessoa amiga telefona-me para cumprir o ritual das boas festas, vai dizendo, muito depressa e com muitas palavras, que este ano é tudo mais cedo porque vai viajar, e porque não está para aturar a família, e como não tem crianças não deve explicações a ninguém.
E por momentos ficamos em silêncio.
E lá vêm os conselhos, esta pessoa é sempre muito avisada e avisadora.
- E tu anima-te,e vê lá se não sentes tudo tanto!

Afinal qual é a missão da escola pública?(Renato Russo e Adriana Calcanhoto - Esquadros (1994)




Não é por acaso que defendo a educação como pedra basilar na construcção de uma sociedade mais justa, mais disponível para desenhar o futuro, para enfrentar o plúmbeo céu e despejar-lhe baldes de tinta garrida.
A escola deveria ser capaz de possibilitar o contrariar das adversidades socio-económicas das crianças, a escola, e muito mais a escola pública, deveria ser a bagagem necessária para superar as duras marcas das vidas menos fáceis.
Numa sociedade dita democrática e assente em princípios de equidade, a missão da escola pública não poderia perder o norte, as limitações sócio-económicas deveriam ser o sinal da sua imprescindibilidade, e não, a justificação para os fracassos, anunciados como destinos marcados desde demasiado cedo.
Num diálogo com um professor titular, por quem tenho muito respeito, trocamos impressões sobre várias crianças, focamo-nos na interação com o grupo, na disponibilidade para arriscar, na compreensão de instruções, na criatividade e imaginação,num determinado ponto da conversa fala-se uma criança específica. Sobre ela é dito que vem de uma família muito pobre, que o pai abandonou a casa e que a mãe trabalha nas limpezas todo o dia, vindo buscar a filha à escola por volta das seis horas, levando-a para casa, para cuidar dela até ter que voltar a sair para fazer limpezas em escritórios durante parte da noite, e nessa altura a criança fica entregue a uma avó quase analfabeta e que não a pode ajudar com os trabalhos de casa, por isso não haverá muito a fazer.
O discurso fatalista e camufladamente exclusivo é o reflexo do falhanço da política de educação, é o assumir das assimetrias como determinantes inultrapassáveis no percurso de uma criança.
Afinal para quem é a escola? para quem não precisa dela e pode aprender fora dela, com pais, de preferência professores, ou para quem só tem acesso aos conteúdos da escola se a frequentar e enquanto a frequenta?
A percepção das limitações das famílias deveria funcionar como motivo de reflexão por parte dos professores na forma como propõem as tarefas a realizar fora da escola, inequivocamente os trabalhos de casa deveriam ser realizáveis autonomamente pelas crianças e não serem uma convocação para que os pais completem as tarefas que a escola assumiu, constituindo-se assim como uma fonte de angustia e frustração, uma zona onde os afortunados serão sempre os afortunados e onde todos os outros serão sempre os fracassados. Enquanto a escola, e a escola pública ainda mais, agravarem as assimetrias em vez de as transporem, a vida das crianças que não ^tenham outros recursos vai manter-se condicionada, vai ser uma vida a prazo, de falhanço anunciado em falhanço anunciado até se consumar um abandono que na verdade foi ditado pelas fragilidades socioeconómicas, aquelas que deveriam ser acuteladas pelo famoso estado social.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

As crianças pobres devem ostentar sorrisos assustados enquanto limpam o ranho a camisolas desbotadas e esburacadas, como convém.




As mulheres pobres usam sempre calças de malha castanhas às quais sobrpõem saias de fazenda preta. As mulheres pobres estendem roupa e sacos de plástico, em varais de pau. As mulheres pobres têm buço. As mulheres pobres parem filhos todos os nove meses para garantirem o abono. As mulheres pobres só dão bolos aos filhos. QUando chega a noite, as mulheres pobres vestem por cima da roupa que já trazem, um roupão turco e cheio de borbotos.
Os homens pobres, vestem sempre camisas de flanela quadriculada e por cima, camisolas de decote em V, daquelas que têm uma risca vermelha e outra branca na zona do colarinho. Os homens pobres passam os dias a mexer nos motores de carros que já não funcionam e que nem têm rodas, quando chega a noite, os homens pobres abrem a navalha e desbastam pequenos paus.
As crianças pobres vestem fatos de treino listados, ou calças de bombazine de canelado largo, em tons acastanhados e os seus sapatos nunca devem ter atacadores.As crianças pobres passam o dia na rua a jogar ``a bola com velhas latas e a limpar o ranho esverdeado a camisolas desbotadas e esburacadas. Quando cai, a noite as crianças pobres chupam pacotes de açucar nas tabernas.
Os velhos pobres, já foram crianças pobres, homens ou mulheres pobres e por isso sabem muito bem desempenhar os seus papéis de velhos pobres, cuspindo ruidosamente para o chão e bebendo, sem saberem se a noite antecede o dia ou se o dia clama p'la noite eterna.

domingo, 9 de dezembro de 2012

Deixa-me ser muito velha, hoje. (Jacques Brel.J'arrive)


Peço-te, deixa-me ser muito velha, hoje, por hoje, hoje mesmo, envelhecida e mesmo até um bocado desgrenhada, com o cabelo amarrado, deixa-me enrolada naquele velho cardigan teu que comprámos na Escócia e que tu já não suportas, deixa-me a ler Whitman até que a lareira morra, enquanto bebo um chocolate quente temperado com whisky. Deixa-me ter gatos que fujam pelo telhado em fevereiro e só reapareçam em março. Deixa-me ser muito velha e muito eu, hoje, só hoje.

sábado, 8 de dezembro de 2012

Marilyn Monroe Happy Birthday Mr President





Logo pela manhã, leio na parede virtual de uma Professora ( daquelas Professoras de sempre e para sempre), a frase:
"PARABÉNS, SENHOR PRESIDENTE!"
As poucas sinapses que ainda funcionam, disparam para a cultura anglo-saxónica, para os americanos, um presidente mantém o título, mesmo depois de abandonar o cargo. Por cá junta-se um prefixo que simboliza a perca de poder, ou pelo menos a perca dos poderes associados ao cargo em causa, ex-presidente, poderíamos agora divergir e divagar acerca das motivações que levam os americanos a manter o título sem as mordomias, e os portugueses a prefixar o título sem prejuízo das mordomias, mas esse não é o ponto deste texto.
Já a tarde ía alta e numa hesitação entre o chumbo e a luz ensurdecedora, quando dou por mim a cantar "HAppy Birthday, mr president", flashes intermitentes da Marilyn e do presidente J. F. Kennedy, e eu sem compreender de onde vinham.
É neste momento que compreendo o poder de um Ìcone. Um Ícone, é alguém que captura as frases mais simples e inócuas, subjugando-as ao seu poder, à sua imagem.
Não é possível dizer "HAppy Birthday, Mr. President", sem se ser invadido pelas imagens da Marilyn. Este é o poder de se tornar significante, ser a imagem que aparece associada a determinados significados, o verdadeiro poder mediático, mediúnico ou imediato. Tornar-se corpo de palavras banais pode parecer pouco importante, mas as palavras banais pronunciam-se com frequência muito superior às outras. e a cada banalidade, dispara na nossa mente um ícone, mesmo que a razão pura disso não se aperceba.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Fingir a sério. the platters the great pretender 1955



Como já devo ter dito várias vezes, tenho a sorte de ser Professora de Educação pela Arte, numa escola pública num concelho da periferia de Lisboa, tenho sorte em ser, porque para além de aprender muitíssimo, ainda troco este labor por dinheiro, coisa que, nos aziagos dias que nos deram, não é de pouca importância.
Bom, mas larguemos as considerações e mergulhemos no momento que hoje fez do meu dia um DIA.
Numa turma com meninos de 2º ano(idades entre os 7 e os 9)estávamos a apresentar improvisações a partir de desenhos dos próprios, representando situaçoes de conflito e situações de harmonia entre animais. Este trabalho iniciou-se em setembro com uma proposta para que se desenhassem a si próprios como animais, salientado o que mais admiravam no animal que escolhessem, depois construíram uma máscara, simples, e durante algum tempo, trabalhámos técnica de máscara, primeiro sem som, só movimentos, observámos animais e os seus movimentos, tentámos imitá-los, e depois juntámos os sons, sons de animais, com modulação de voz mas sem palavras. Tem sido um trabalho que tem dado imenso gozo a todos, a eles a mim que tenho aprendido muito.
Hoje era dia de partilha de improvisações.
Na minha frente estavam dois meninos, um leão e um pinguim, de acordo com o desenho de um deles, o pinguim teria entrado na jaula do leão e o leão zangou-se muito a sério.
O pinguim é um menino de olhos doces, de porte maior que os outros colegas, o leão é o ás do futebol no intervalo. Entram os dois a sorrir e a brincar e fingem zangar-se,trocando palavras agressivas entre risinhos, paramos o exercício e questiono a turma sobre o que acábamos de ver; levantam-se vários braços, questionam a verdade daquele encontro, alguns criticam a forma como a zanga se processa:
- Os animais não se zangam com palavras! (diz uma menina, dou tempo e intervenho, para perguntar se os animais nunca podem falar, um rapaz vivo, salta do lugar e grita:
-Nás fábulas, Profª Rita, nas fábulas os animais falam
- É verdade, nas fábulas os animais falam, mas não devem perder a atitude de animais, o andar de animais, o rugir do leão.(digo eu)
O exercício é repetido, após vários comentários.
O Pinguim entra com o seu andar tonto e desajeitado, o leão salta-lhe em cima num rugido animalesco e atira-se a ele. O Pinguim fica a sangrar do nariz e o exercício é interrompido. Socorrido o menino/pinguim, é retomado o circulo, faço-lhes ver que é um momento sério, peço-lhes que pensemos em conjunto para compreender o que aconteceu.
Um dos meninos diz que o colega que fez de leão foi cruel para o o pinguim, outro acusa o colega de ter exagerado na violência, um outro encaminha a discussão para o lugar certo:
- Ele só estava a fazer o papel dele e levou o papel muito a sério, ele não o queria magoar.
Um outro traz a palavra justa para continuarmos a conversar:
-Ele esqueceu-se que era para fingir, e fez mesmo a sério.
E são eles que estabelecem a diferença entre o fingimento e a realidade, e daí derivam para a diferença entre fingir a fingir e fingir a sério, e pronto, lá vem a convenção teatral, a invisível rede de segurança, aquela que nos permite brincar( play)aos mortos e caçadores e ter a certeza que no fim do jogo, tudo volta ser como antes ( pelo menos aparentemente, e isto eu ainda não lhes contei...)

domingo, 2 de dezembro de 2012

A Band Of Buriers - Slides By (Official Video)




Amarro cada palavra a uma pequena fita, para quando a memória já não souber deste amor, as palavras amarradas na fita saibam o caminho de volta e nos levem até à pequena casa, na orla da floresta que tu inventaste e onde eu habito sem mais mundo para além de um nós, um tronco à lareira e um pão no forno.

sábado, 1 de dezembro de 2012

O Natal não é quando um homem quiser.(Maria Ana Bobone - Josè embala o menino)





O meu filho de oito anos chegou a casa com um texto para estudar, sobre uma família que comemorava o Natal em qualquer época do ano, dependendo da quantidade de dinheiro que o Pai tivesse nos bolsos. A dita família era apresentada como rebelde e o título do texto era "Natal é quando um homem quiser", claro que no final a família sucumbia à pressão social e acabava a comemorar o Natal em Dezembro, apenas para evitar dissabores às crianças na escola e no confronto com os outros meninos.
O texto tirou-me do sério, o Natal não é quando um homem quiser, não o Natal não dependende da quantidade de dinheiro nos bolsos dos pais.
Começa hoje o Advento, um tempo de preparação para o Natal, tão importante para viver o Natal como o é a Quaresma para viver a Páscoa. Estes acontecimentos do calendário cristão dialogam, ainda que durante muito tempo o diáologo tenha sido silenciado, estes momentos do calendário religioso são estruturação de outros que decorrem dos ciclos da Natureza, os ciclos da Natureza e os momentos religiosos foram durante séculos os eixos das vidas humanas, mas o homem quis-se deus, sequestrou a natureza e abandonou os deuses, hoje é refém da ausência de eixos, ciclos, rituais, festas e outros mundos que não se compram nem se esgotam nos bolsos de niguém.

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Da piedade e do perdão - parte 2




Há um regaço crescente de face lunar
Um rio negro entre o cá e o lá
Um barqueiro demorado, adormecido na margem errada.

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Entre a piedade e o perdão.Pulp - Help The Aged


Ser velho é ter vivido muito tempo, ser velho é usar uma bengala para andar, ser velho é ver mal, ser velho é ser velho.
Nada transforma uma pessoa num ser especial apenas por ter atingido a velhice, quem foi especial a vida toda, continuará a sê-lo, quem não foi, não verá descer sobre si o espírito santo, sob a forma de línguas de fogo, para o iluminarem.
Tenho dito e nada me demoverá( excepto talvez a minha própria velhice, não esta de agora que ainda é prazeirosa, mas a outra a ultra-velhice)um velho é um velho.
Serve este post para dizer que apesar da prática do perdão ser um exercício reservado a almas muy avançadas e capazes de desprendimentos das cousas da vida, não posso deixar de apelar ao exercício activo da piedade, uma das três virtudes morais, a piedade não deve estar dependente do perdão, a piedade é a face humana do desenvolvimento da civilização, é a marca que distingue um conjunto de seres humanos de uma alcateia.

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Turbulência (PORTISHEAD live SOUR TIMES)






- Parece que a tempestade amainou, já não era sem tempo.
- Desculpe, mas não dei por nada, aqui continua tudo em turbulência - disse ela apontando para a cabeça.
- Não diga essas coisas assim, ainda assusta as pessoas.
- Sabe, pior do que assustar os outros é assustar-me a mim própria, às vezes é inverno durante todo o verão, ventanias e janelas a bater, o som do mar encapelado aqui na planura do nada, e eu a saber que as pessoas não sentem os meus temporais.
É como lhe digo, se a tempestade amainou foi aí fora, aqui continua tudo muito turneriano.
- Se não a conhecesse há tantos anos acho que a convidava para um chá e uma deliciosa fatia de bolo, mas sei que por estes dias anda a café, acertei?
- E há outra maneira de evitar o sono?
- Um dia ainda vai encontrar paz.
- Certamente, no dia que deixar de pensar e sentir e respirar, a menos que exista um além, coisa que duvido metódicamente, mas se isso acontecer serei o exemplo da alma danada por toda a eternidade. Apresse-se homem, aí fora parou de chover, aproveite e vá lá ao seu chá reconfortante.- Ela fugiu por entre umas arcadas de um prédio, deixando-o ali em suspenso.
- Epá,aquela tipa é um bocado doida, não achas? - comentou um outro que assistira sentado a todo o diálogo.
- Não é nada disso, parece que a rapariga é polar.- garantiu o dono do café.
- Polar? Como as camisolas? Ui, então deve ser quente -ironizou o homem sentado.
- QUal polar, qual carapuça, é bi - bipolar.- Afiançou um terceiro homem enquanto despejava um 1920 dentro da chávena de café.
- O quê? É bi? Ah... nunca tinha dado por nada, olhe que se é, é muito discreta, mas digo-lhe não precisava, ela até nem é feia de todo.
O primeiro homem, olhou para dentro do café, encolheu os ombros e saiu em passo acelarado, sem parar, percorreu as arcadas do prédio por onde ela tinha desaparecido.
A chuva torrencial regressou, sem contemplações nem pausas para chá.

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

A asa era de cera e ela não sabia sparklehorse - shade and honey


A sombra descobria-lhe um sorriso inábil. Viu crescer-lhe uma asa ali no lugar do braço. foi fazer um café e como só lhe restava o braço esquerdo desistiu, quis escrever mas era dextra, quis vestir-se e a asa não cabia. então deixou-se estar assim, a dançar sem ocupação nem preocupação. um sol ardente rebentou a sombra e a asa derreteu. a asa era de cera e ela não sabia. sob um sol insuportável, preparou um café, vestiu-se e sentou-se a escrever.

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

A minha Avó afinal sabe coisas! José Afonso - "Ó minha amora madura" do disco "Eu vou ser como a toupeir...


Na semana passada estava a cantar com os meus alunos, e como na semana anterior já tinha contado uma história a partir das recolhas do Teófilo Braga, coisa que já fazemos desde o ano lectivo anterior, decidi falar-lhes sobre tradição oral, e lá fomos nós a falar sobre Portugal ( desenhado por mim no quadro, por não encontrar aqueles mapas antigos que havia no meu tempo em todas as escolas), para falar de tradição oral chamei à conversa os avós dos meus alunos, de onde vinham, onde viviam, e o que tinham para contar. E lá fomos desmanchando palavras difícieis daquelas que eles gostam de repetir e que já se habituaram a pedir: -Ó profª Rita, podes desmontar essa palavra? Tradição Oral. Nisto, Uma menina disse-me, entre a vergonha e a pena, que a avó não lhe podia dizer nada pois a avó nada sabia por não ter ido à escola em pequenina. Os pais tinham-na avisado que não pedisse ajuda à avó para fazer os trabalhos de casa, a avó até sabia fazer contas mas só de cabeça porque não sabia escrever os números. E lá fomos nós desmontando a tradição oral, comigo a dizer-lhe que a avó saberia decerto cantigas ou histórias dos tempos de pequenina, dos tempos antes da televisão. ( este foi o grande espanto, como passar uma noite sem televisão, a fazer o quê?) Nesta semana, nova aula, e volto a lembrar a tradição oral, desta vez só para não deixar no vazio o trabalho anterior, a menina da avó que não sabia nada, põe o dedo no ar, dou-lhe a palavra: -Prof.ª Rita, a minha avó afinal sabe coisas! Eu cantei-lhe a canção do limoeiro e ela até sabia outra parte, e eu escrevi e trouxe-te. (naquele momento apeteceu-me pregar-lhe um beijo, a quadra escrita por ela e ditada pela avó vinha cheia de erros, mas valeu por centenas de páginas de teorias por viver).

terça-feira, 20 de novembro de 2012

comunicar com crianças é uma aprendizagem tão difícil como entender as melodias das baleias.To Kill A Mockingbird Soundtrack 1. Main Titles


Li o livro de Harper Lee há pouco tempo, e foi uma experiência tão forte que ainda não consegui deixar ir as personagens, ando com o livro na mala e volto a ele todos os dias, pelo simples prazer de reencontrar os momentos e as personagens. A infância é um território complexo. Cruel e belo, onde a fábula e a razão convivem sem se aniquilarem. "Killing a Mocking Bird" é indispensável para quem queira entrar neste território, comunicar com crianças é uma aprendizagem tão difícil como entender as melodias das baleias. Ouvi-las e falar-lhes, sem as menosprezar, mesmo quando as suas afirmações desafiam a lógica, é um processo de disponibilidade de alma que leva o adulto a percorrer a estrada entre a certeza e a dúvida, sem se entregar à descrença.

Peças soltas numa engrenagem momentos antes da implosão


Não compreendo o mundo, não compreendo o discurso sobre a realidade, não compreendo os humanos, nem os animais dentro deles, não compreendo os sinais, nem os signos, nem o trânsito na rotunda. O mundo caiu ao chão e quando o apanharam escutaram-se peças soltas na engrenagem.

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Wim Mertens Ensemble - Struggle for Pleasure


-Dás-me licença que te ame? - Perguntou ele. -Agora não, tenho muito em que pensar, o ruído do teu amor por mim pode interromper o meu fluxo mental, não leves a mal.- Disse ela, sem desviar os olhos do livro. -Então deixa-me olhar para ti. -Isso ainda é pior, a contemplação interfere de um modo subterrâneo e insinuante, por favor não o faças. -Está bem, está bem, vou odiar-te em silêncio, se isso te convém. -Ainda não compreendeste. Eu quero que Não tenhas sentimento algum por mim, ignora-me, sem desprezo, desconhece-me, sofre de amnésia emocional sobre mim. Ele saiu batendo a porta, sem palavras. Ela fechou as pesadas cortinas de veludo verde e recostou-se, sem livro. Agora podia saborear o vazio.

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Há um inverno a descer sobre este outono.Sigur Ros - Olsen Olsen - HD


Há um Inverno que desce sobre nós. Um frio de luz que agride os nossos olhos turvos. Lágrimas, lágrimas e dentes cerrados. Há um outono que se esconde de nós. Folhas vermelhas em fuga. Há um inverno que se instalou por baixo da pele. Uma morte pequenina que incendeia a vontade.

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Adriano Correia de Oliveira - Tejo que levas as águas


Passaram mais de vinte e quatro horas. A cidade lavou a ferida. E correm mágoas para o mar. seguem-se outros capitulos negros de uma história negra. os miúdos na rua, as vontades pueris de se tornarem ícones de uma revolta, um sistema sem possibilidade de regeneração, e a pergunta dolorosa a regressar em espiral. A ética e a fome que relação mantêm?

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Anouar Brahem - Conte de l'incroyable amour


Qual é a quantidade de tristeza que uns olhos podem guardar? Quando é que a tristeza transborda? Como é que a tristeza se veste de fúria e vai da água ao fogo?

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Que sabes tu acerca do sabor do inferno?


Ainda acabrunhado, ele agarrou-lhe a face com dois dedos e afirmou: -Despertas em mim o que há de pior, perto de ti confirmo a existência do inferno. Ela evitou cruzar o olhar. Aquela conversa não lhe agradava. - Preferia que me falasses de ambrosia e mel, mas se preferes o sabor do inferno, devo afiançar-te que nada sei sobre o assunto, talvez tu me possas explicar. Encerrado o diálogo, sobraram os gestos, aqueles que não cabiam nas palavras e que galgam o silêncio numa vertigem sincopada.

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

domingo, 11 de novembro de 2012

um destino de ofélia desprendia-se do musgo das paredes. Kylie Minogue & Nick Cave - Where the Wild Roses Grow


um destino de ofélia desprendia-se do musgo das paredes. um corpo flutuante na ribeira, no fundo do laranjal, uma memória sem tempo, uma memória toda feita de lugar. abandonou a casa à fome da hera. Sem porta trancada, sem despedidas. Sem retorno possível.

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

A não consciência do Bem e do Mal.

Eram duas mulheres de idades muito diferentes. Uma deles mostrava reverência perante outra, ouvindo os seus preciosos conselhos. A mais velha atirava palavras como quem atira pedras. A conversa prolongou-se, embalada pela luz mórbida do subterrâneo. Era uma descrição detalhada sobre todas as velhotas de um lar, com pormenores sobre as finaças e família de cada uma delas. O tom desbragado da mulher mais velha era aterrador. - A Dona Conceição é muito rica, tem tudo do melhor, e dinheirinho, mas tem dois filhos que a vão ver todas as semanas, o filho até vai às vezes lá almoçar, não vale a pena perderes muito tempo com ela, dali não vem nada, é limpar o quarto e andar. Já a D. Berta, essa não tem nada, coitada, é um sobrinho que lhe paga tudo, e nem a vai ver, não precisas limpar todos os dias. Agora a outra, a do fumdo do corredor, tem uma nora que é enfermeira e anda lá sempre a cheirar, aquela que é toda mirradinha, estás a ver? Ah, falta a do nariz adunco, ui essa, então é assim, tem dois filhos, tem dinheiro, e os filhos têm lá a sua vida, têm bons carros, o filho diz que é engenheiro, e a filha é professora mas da faculdade, durante anos era muito generosa, não tinha netos, e pelava-se por um bocadinho de conversa, mas agora, o filho adoptou um casalinho de irmãos que estavam muito desprezados, olha só te digo, a velha parece que viu o sol pela primeira vez, só fala dos netinhos, é tudo para eles, e para nós acabou-se, portanto olha, não há guito, não há cá leitinho morno nem bolachinhas, julgas que eu sou parva... A receptora da informação mantinha-se muda, acenando com a cabeça, a cada frase da mulher mais velha. O mais estranho era o facto de as mulheres agirem como se nada de reprovável estivesse ali, naquele diálogo sórdido, naquela partilha com cheiro a crime. O mal é a ausência de bem, a não consciência da fronteira entre um e outro, é um território da erosão dos afectos e do sentido de comunidade.

Tenho-te um amor reconcâvo, daqueles que são onda ou chuva ou terra conforme o nascer do sol por dentro de mim.


domingo, 4 de novembro de 2012

Na esquina dos dias que findam, espera-nos o regresso da barbárie.

Tenho tentado adormecer-me na poesia, já que a realidade está cada vez mais vulgar, encarniçada e escarnecida. Exilei-me num canto, que não era nono, e dei à costa num brutal embate entre corpo e rocha. Que não restem dúvidas, está em causa a civilização. Já não se trata apenas, de um modus vivendi versus outro. Na esquina dos dias que findam, espera-nos o regresso da barbárie, a lei do mais forte, a natureza em tom cruento, sem eufemismo possível. Desmantelar o estado social é muito mais do que reduzir na despesa, é um projecto social com contornos de abismo. Desmantelar o estado social não é somente deixar de garantir a saúde tendencialmente gratuita, a educação para todos, as reformas para quem trabalhou e as protecções para grupos específicos, é rasgar o pacto entre os homens, o pacto que evita a ira do esfomeado contra o banqueiro. É aninhar a raiva e acordar a barbárie. A evolução física da humanidade retirou-nos força bruta e fomos aperfeiçoando a utilização de outras skills( aptidões, ferramentas) mais apropriadas a vida em comunidade que, julgámos nós, se teria tornado menos hostil. Mas se se interromper a evolução, constrangendo a humanidade, o instinto de sobrevivência, inerente a todas as espécies que não se abandonam à extinção, voltará a fazer crescer garras no fundo das nossas mãos e os caninos voltarão a afiar-se. Claro que não será imediato, uma ou duas gerações possuirão ainda skills desadaptadas da realidade, esses transformar-se-ão em presas fáceis, gazelas impotentes. O mundo em construção é sobretudo um mundo em colapso, uma extinção programada da civilização, os novos bárbaros nada têm de doce e já por aí andam com palavras em forma de pedras lascadas.

sábado, 3 de novembro de 2012

Sia, Lullaby

A casa é sobretudo um lugar dentro de mim onde vocês poderão sempre adormecer tranquilos envolvidos por um longínquo cheiro a lavanda. ( aos filhos)

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Patsy Cline - Crazy

Um professor alertou-me, há já vários anos, para o retorcido poder dos loucos, aqueles que se nos afiguram como frágeis figuras, mas que utilizam essa aparência para torcer a verdade, amassar os factos e transformar tudo em narrativas sem eixo nem foz. Já tive pena dos loucos, já tive medo da loucura, já tentei caminhar por entre ela como alguém que tenta escapar da chuva numa noite de tempestade. Hoje sei que certas coisas, ou gentes coisificadas, apenas existem no reino das sombras e só lá devem permanecer.

sábado, 27 de outubro de 2012

Mabul "The Flood" Theme song by Patrick Watson. March 2011.

desenhar o mundo com lápis de carvão? com lápis de carvão só esquissos e não se pode viver dentro de um esquisso. vou escrever em cada bocadinho do desenho, o nome da cor que ali deveria estar, assim quando choverem lápis coloridos poderei completar a ideia.

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Naragonia - Alio (Mazurka)

que tombem! que se despenhem, estes senhores do nada. enquanto as almas pedirem aos corpos a dança, enquanto os corpos escutarem a melodia das veias, o mundo terá um caminho.

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Massive Attack - Live With Me

Da fragilidade e das certezas. O baloiço ao vento recebe a momentânea luz de um sol pequeno. Os corvos, agora três, regressaram. E os dias precipitam-se e as noites desesperam.

domingo, 21 de outubro de 2012

Biscoito caseiro de Aveia e chocolate

Biscoito caseiro de Aveia e chocolate Ingredientes 100 gr. manteiga 75 gr. açúcar branco 75 gr. açúcar mascavado 150 gr. farinha de trigo 150 gr. aveia (flocos) 100 gr. de chocolate negro em lascas grosseiras 1 ovo 2 colheres de sopa de leite Modo de preparação. Bater o açúcar com a manteiga até obter um creme espumoso. Juntar os restantes ingredientes envolvendo sempre tudo muito bem até formar uma massa. Deitar a massa sobre um tabuleiro forrado com papel vegetal. Levar ao forno pré-aquecido, deixar cozer até ficar dourado nos cantos. Retirar o tabuleiro do forno, cortar os biscoitos em formas quadrangulares. Deixar arrefecer, guardar numa caixa hermética. Servir com café bem forte ou com leite branco.

Johann Sebastian Bach - Cantata BWV 82 (1727) - Aria - "Ich habe genug" ...

A pulsão da posse transfigura os homens. Entender a vida como um tempo escasso e cedido por um universo em constante evolução. Agradecer beijos de chocolate, agradecer as quedas e os medos e as mãos. Ter o suficiente e poder morrer sem rancores ou vinganças adiadas ou viver saboreando cada pedra cada raiz cada fruto. Largar coisas e segurar pessoas.

NICK CAVE - Leonard Cohen's Suzanne

apenas o rio fala por mim as tuas palavras enroladas à cintura a enseada onde repousamos o terror do lodo a barca sem inferno a descida ao reino das sombras a impossibilidade dos dedos e o rio a dizer-me da lonjura do teu peito o corpo à tona d' água um murmúrio sem costa as tuas palavras na minha mão fechada apenas o rio fala por mim

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Sé que me muero - Raquel Andueza & LA GALANÍA

A geada traz um pranto doce Um pranto de canela e açúcar uma casa é a memória de um cheiro uma casa é um odor melado num dia chuvoso.

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Vitorino & Janita Salomé - "Passarada" do disco "Moda Impura" (2012)

Sei bem, por dentro da pele, no latejar das veias, na intermitência da alma, que os dias são de raiva, que o ódio entrou de rompante quando a paz e a justiça desmaiaram. Mas sei, ou quero muito saber, que a singeleza de uma melodia tradicional tocada e cantada entre sorrisos de uma cumplicidade de vozes que se emaranham, é das coisas boas que ainda podemos fazer. Cantar juntos, cantar até que o mal se espante.

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Sycamore Trees-Sarah Fimm (The Barn Sessions-Live)

O nocturno canto resguarda o fogo. Vagas neblinas desmentem a noite. Aproxima-se o dia em que o teu sopro bastará. Um sopro sem verbo nem substantivo, um sopro apenas sopro. O nocturno canto revela o abismo.

domingo, 14 de outubro de 2012

Drowning by Numbers - Trailer

estamos a submergir por causa dos números. contas que dão sempre errado. Sobram as pessoas, umas variáveis andantes daquelas que não encaixam em gráficos secos. Voltaremos a ser anfíbios.

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Cry Me A River - Bjork

Desabitado o mar do desejo Entramos descalços no rio do medo. O rio do medo, só tem margens, não tem pontes. O mar do desejo encapelou-se e desaguou-nos. Só a lua dorme no rio do medo.

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Massive Attack - Teardrop - Live, Abbey Road (2006).avi

Da beleza e da compaixão, a humanidade em tom maior.

" Quando num ninho, os passarinhos estão doentes, os pais não os alimentam. Deixam-nos morrer, reservando os seus contributos alimentares para os mais vigorosos, os que serão capazes de transmitir genes para a perpetuação da linhagem. Pelo contrário, os seres humanos, preocupam-se tanto ou mais com os seus filhos doentes como com os outros, por vezes até mais. Trata-se de um elemento novo na evolução da vida terrestre. Os homens não são inexoravelmente submetidos à logística dos genes. Podem preocupar-se com os que sofrem, tentar aliviar o seu destino,mesmo que daí não possa resultar nenhuma repercussão genética proveitosa para o conjunto da espécie. Esta tendência, absolutamente humana, para a compaixão manifesta-se de múltiplas maneiras: abolição da escravatura, melhoramento da situação das mulheres, consciencialização para a sensibilidade dos animais. Vontade de não mais os considerar simples mercadorias. Eis, em minha opinião, o mais belo contributo da humanidade para a vida do planeta. Nenhuma outra linhagem animal, que saibamos, enveredou pelas vias do conhecimento científico, da criação artística, para tornar o mundo mais belo, e da compaixão, para aliviar o sofrimento dos outros, animais ou humanos." Hubert Reeves "Já não terei tempo"

domingo, 7 de outubro de 2012

Hoje Câmara Clara

Se me puderes ouvir O poder ainda puro das tuas mãos é mesmo agora o que mais me comove descobrem devagar um destino que passa e não passa por aqui à mesa do café trocamos palavras que trazem harmonias tantas vezes negadas: aquilo que nem ao vento sequer segredamos mas se hoje me puderes ouvir recomeça, medita numa viagem longa ou num amor talvez o mais belo José Tolentino de Mendonça.

Patrick Watson - Je te laisserai des mots

Não posso dar, resta-me pedir. A palavra enferrujou e arde agora na garganta. O sol do meio dia é poente A rocha encheu-se de lapas. Aguardo a tempestade.
(Psycho, Alfred Hitchcok 1960) São várias as pessoas que falam com uma surpreendente naturalidade da morte do governo. O convívio prolongado com cadáveres é um problema de saúde pública, não existe tratamento ou curativo que evite a a decomposição dos mortos. Urge convocar cangalheiros e encomendadores de almas, salvo se a opção for a mumificação.

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Fala-me do ar que respiras. Explica-me como se respira. Estou cansada de expirar. Simulei viver mas desaprendi. Emocionei-me mas desiludi-me. Espantei-me mas a náusea... Se ao menos soubesse inspirar. Fala-me do ar que respiras. Como aguentas a rarefacção?

entre soluços e cilícios.

Sempre tive dificuldades em lidar com pessoas que proponham o sofrimento como forma de superação da condição humana. Se me é permitido achar alguma coisa, acho que dEUS se sente agredido por quem busca sofrimento e por quem oferece sofrimento ao seu semelhante. Claro que nada disto invalida a ideia de que existe bem e mal, bons e maus, recompensas e castigos. Aquilo que me cheira a sobranceria, é alguém julgar que buscando ou oferecendo o sofrimento, está elevar-se e a aproximar-se de um modelo de existência divino. O governo português está a praticar sadomasoquismo económico-financeiro connosco. Fala-nos numa voz suave e velada enquanto nos coloca apertados cilícios, gabando-se entre amigos fetichistas da nossa total submissão. Ora, eu não costumo falar das formas outras de obter prazer, mas se me incluem como parceiro forçado, aí parece-me da mais elementar sensatez, pronunciar-me acerca daquilo que me dá ou não prazer, e afiançar a esta gente que não quero o reino dos céus, se este for o caminho. E nem os mando f.... pois falta-me vontade de lhes desejar um bom feriado, que vai ser este ano comemorado à porta fechada.

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Cuidado com os dois lados da mesma guerra.Lenine - Paciencia HD

Levantaram-se as vozes a clamar vitória, mas os dias são de completo desespero e abandono. A alternativa não virá de quem tem ido a jogo, a esperança mora noutras paragens. Deixem de se alimentar da nossa carne seca, sejam governantes ou oponentes, nestes dias o nosso sofrimento convém-vos. Saibamos dar o passo atrás, o contra-movimento dos desenhos animados, saibamos suster a vontade e delinear com cuidado a forma de virar a mesa, acabar o jogo, mas sem manter os mesmos dados viciados, os trunfos serão outros e não se encontra nestes baralhos. A democracia merece ser salva porque só através dela se pode lutar por condições de vida justas para todos os homens.

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Dia Mundial da Música Glenn Gould 2/4 Goldberg Variations (HQ audio - 1981)

se algum dia os homens deixarem de saber do prazer da arte, do sublime prazer da arte, bastará decerto a visão deste rosto de puro gozo, a escuta destas notas justas, para lhes devolver a esperança.

Jacques Brel - Quand on a que l'amour

Vestidos de nada, caminhámos mãos abertas e palmas viradas para o mundo, haveremos de apanhar o sol ou a lua ou um vendaval entre os dedos.

Zeca Afonso - Canção de Embalar

Que o regaço nunca se esgota para os filhos, afastem-se as víboras pois delas não será o meu calor. Embalo a noite enquanto um sono antigo vos afaga.

domingo, 30 de setembro de 2012

A colecção de respostas era afinal uma extensa lista de dúvidas.

Olhar para nós mesmos e encontrar o monstro em nós. Saber não alimentar o monstro de mim, o monstro de mim come raiva, bebe desprezo e vomita ódios. A humanidade caminha sobre frágeis caminhos, pontes suspensas no abism, entre a irrelevância e a morte. O pisar do chão condiciona os sonhos, a terra debaixo dos pés pode sentir-se acariciada ou espezinhada. Há quem cuide do seu monstro tomando-o por um anjo, e há quem tema os anjos por vê-los como monstros. Anjos e monstros voam e é uma tarefa difícil distingui-los, escolher qual deles alimentar e aninhar no regaço. Olhar para nós e ver o monstro de nós mesmos, o outro ou nós mesmos?

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Uma mesa. Um bolo. sete vidas de gato.

Bolo de Chocolate Ingredientes 5 Ovos 300 Gr. Açucar branco fino 200 Gr Chocolate 70% 200 Gr. Manteiga sem sal 5 Colheres de sopa de farinha. Modo de preparação. Acender o forno. Bater com energia (vara de arames) os ovos e o açúcar, até obter uma espuma esbranquiçada. Derreter o chocolate e a manteiga, juntando 2 colheres de leite. Misturar os dois preparados. Por fim incorporar a farinha sem mexer muito. Verter numa forma forrada com papel vegetal untado com margarina. Levar ao forno, ter o cuidado de reduzir a temperatura para o mínimo. Deixar cozer durante 20 a 25 minutos. Deve formar uma crosta mas por dentro manter-se-a húmido. Deixar arrefecer e cobrir com cobertura adequada; Chantilly e morangos, ou pudim de chocolate preparado com natas em vez de leite. Saborear como se fosse o primeiro ou o último bolo do mundo

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Haverá um universo da infância?

Um menino de seis anos, agitado, conflituoso, sem foco, olha para mim e conta-me: - Professora Rita, o meu padrasto à noite, diz-me que se eu não adormeço depressa vem lá o Freddy Krueger, e antes de eu ir para a cama mostra-me o Freddy Krueger no computador, e eu escondo-me na cama, num cantinho que tenho lá. Achas que o Freddy Krueger sabe onde eu vivo?. Nunca levei um murro físico no estômago, mas este momento foi como uma carga de tareia de ficar estendida no chão. O que se passa com as pessoas adultas? O que se passa com as pessoas? Apresso-me a responder ao menino que o Freddy Kruegger não existe, falamos de filmes e efeitos especiais. Um colega diz-lhe que são só operações plásticas e eu lá desfaço a ideia, próteses de cinema não são operações plásticas, são máscaras que se põem e tiram, são maquilhagem, lá prometo que vou mostrar-lhes o que são próteses para cinema. Mas a inquietação não desaparece por completo. -E o Papão, também é do cinema? Entramos numa zona complicada, a fantasia ao serviço do medo, e as minhas dúvidas são imensas. Se olharmos para as narrativas infantis, pré-disney, encontramos a crueldade em estado puro, sem açúcar. A crueldade humana deve ou não ser ensinada às crianças? Qual a função da crueldade na construção da personalidade? (vide Bettelheim, Bruno - Psicanálise dos contos de Fadas.Bertrand Editores 2005 (1ª Edição 1975). O mal, ao contrário do que gostaríamos de acreditar, é humano, esta é uma coisa complicada para ensinar às crianças, se o mal fosse apenas obra de seres fantásticos, as coisas seriam mais simples, os maus seriam sempre e só os outros, os não humanos, os gigantes, os ogres, os zombies. Sou pessoalmente, muito crítica, da disneyrização dos contos infantis, arredondar as histórias,ao invés de proteger,torna as crianças mais vulneráveis, pois nada no seu universo as predispõe para o reconhecimento do mal e da crueldade humana. Mas existe uma linha divisória entre preparar para o mundo, feio, cruel, onde os maus são humanos como nós, e a perversão de utilizar referências do terror para adultos ( claramente classificado para maiores de 18 anos) como mecanismo de controlo através do medo. Este gesto é doente, não tem fundamento pedagógico que o defenda, e mesmo em tempos turvos, ou , sobretudo em tempos turvos, é imprescindível separar os gestos que nunca se podem configurar como gestos bons e os gestos de raiz boa. Contar a uma crianças que os lobo comeu o porquinho que não construiu a sua casa com paciência e empenho, é potencialmente transformador, leva a ponderar a atitude, aterrorizar uma criança com imagens realistas, cinematográficas, de um zombie com mãos de faca, é sempre e só malvado e perturbador.

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Alain de Botton - On Pessimism from The School of Life on Vimeo.

(David e Golias Ticciano- 1542) Golias era estúpido? Golias era certamente presunçoso. David era forte? David era certamente destemido. Contra a força bruta, torna-se necessário treinar a agilidade, a rapidez e alguma matreirice.

domingo, 23 de setembro de 2012

Se há coisa para a qual fui gradualmente perdendo paciência, é a moralização linear, infantilizadora e falaciosa que tem sido feita pelas classes dirigentes. A ideia da formiguinha industriosa, pequenina, encarreirada, esmagável, incansável, isenta de ambição pessoal, por certo não assenta aos nossos ilustres governantes e decisores, mas, acham eles, deveria assentar ao povo, e o povo é uma massa informe, de gente sem desejos, sonhos ou vontades que se deve curvar de gratidão perante a caridade, em vez de exigir direitos. Assusta-me um mundo sem cigarras, as cigarras são inutilmente essenciais, o seu cantar não mata a fome, nem serve como agasalho nas noites de frio, mas tristes daqueles que não se alimentam do cantar das cigarras, jamais conseguirão desejar um mundo mais belo e mais justo ( sim a beleza e a justiça são amantes nada secretas). Um mundo de macedos, relvas, e outros lafonténes de vão de escada, sem habilidade para a parábola e cheios de ardis de lupanário.
Primeiro encapelaram-se as nuvens, anunciando o mar bravio. A luz do candeeiro chegou mais cedo. Devolvo o sol na pele, agradeço e recolho-nos entre as folhas. Aninho uma dor pequenina, uma ampulheta gigante revela a areia a escassear no topo. A chuva repousa na terra morna.

sábado, 22 de setembro de 2012

A hora dos Corvos.




Gosto de acordar antes dos outros, como se esse gesto me concedesse um dia a mais, só meu, para preparar o acordar dos outros. É um tempo de silêncio. Um silêncio abandonado, cheio de ideias e planos para as horas cronometradas do resto do dia, ou às vezes indolente e vagaroso, sem objectivo, é um silêncio saboroso; om restolhares de folhas, cheiro a terra molhada e o piar agudo de um casal de corvos. Entre as seis e quarenta e cinco e as sete e trinta, o terreno é dos corvos, piam, voam, sobem aos ramos dos pinheiros e depois descem a pique, saltam no chão e retomam o voo, chamam-se e quando a hora acaba vão embora. Assisto a este ritual há cerca de um ano, talvez até já faça parte do ritual. Há cerca de uma semana algo se quebrou neste ritual. Um dos corvos desapareceu. O outro perdeu as horas. Pia em gemido a todas as horas. Sobe ao cimo do pinheiro mais alto e ali fica parado a gritar pelo outro corvo. Já não há a hora dos corvos, todas as horas são o desespero do corvo. Hoje ainda não chegou, vou ter que encontrar outro som que me devolva o passar das horas, senão perco-me e fico em silêncio.

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

losing my religion by Tori Amos

Dois mil anos a renegar o corpo e a venerar uma amputação ficcional.

Vi esta notícia Papiro cita Jesus a falar da sua mulher - Ciências - PUBLICO.PT
já há alguns dias mas demorei a processar o que ela conteria de perturbador. Cristo foi homem, foi tão verdadeiramente homem que pode até ter casado e ter sido Pai. Esta verdade aproxima Cristo da humanidade. Já o sabíamos filho, agora descobri-mo-lo Pai e homem. Este plano parece pacífico. Num momento de profunda crise, aproximar Deus dos sofrimentos humanos poderia ajudar a dar sentido à dor de muitos homens, pais, que se sentem impotentes perante um cataclismo para o qual não foram educados nem têm ferramentas(dentro dos sistemas lógicos existentes) para o ultrapassar. Mas, depois de dois dias a digerir a ideia sem repulsa alguma, começo a olhar para as sombras. A verdadeira questão não é saber se cristo teve ou não teve mulher e filhos, não se trata de escavar o lado privado de uma figura pública e denunciá-lo perante milhões de adoradores. A questão principal é encarar uma civilização que se estruturou glorificando a abstinência, diabolizando e subalternizando o amor físico e que agora terá que se compreender integrando esta possibilidade da experiência física do amor entre Cristo e uma mulher. A humanidade de Cristo traduzida pela unidade entre corpo e alma e não o apelo à amputação do corpo como se esta amputação fosse a única possibilidade de caminho e salvação. As marcas desta narrativa são profundas e transportam a semente de muitas perversões, praticadas por homens ao serviço de uma igreja que lhes impôs um celibato que teria origem na própria vivência de Cristo. Esta notícia liberta o amor físico da sombra e transporta-o para a luz. Simultâneamente cobre de breu uma igreja que ao não escutar a voz do corpo promoveu gemidos de horror destruindo vidas, nomeadamente de muitas crianças abusadas. O suposto casamento e a paternidade de Cristo impõem uma revisão das premissas de toda uma cultura para a qual o corpo foi visto como a zona sombria da existência.

terça-feira, 18 de setembro de 2012

-A máquina da roupa está sem centrifugar. -E o que queres que faça? Que torça eu a roupa? -Não, só queria que a máquina trabalhasse. detesto quando os objectos se vingam nas pessoas da vida monótona que levam. -Os objectos são isso mesmo, objectos, não se vingam de nada. -Isso julgas tu, lembraste quando o ferro deixou de passar, naquele dia em que eu tinha uma reunião e os miúdos começavam as aulas? E quando o frigorífico deixou de congelar, em pleno verão, num domingo, antes de um feriado? Os objectos podem ser-nos fiéis, como a máquina de café que está connosco há anos sem uma avaria, ou podem ser traiçoeiros, como a máquina da roupa que já se avariou três vezes e sempre em momentos complicados. -Impressionante, para ti até a porcaria dos electrodomésticos sentem, olha a máquina da roupa não centrifuga, pois não? Em compensação tu centrifugas por qualquer coisa... -Incrível, para ti até as pessoas se electrodomesticam.

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

David Sylvian, Steve Jansen - Playground Martyrs [The Occurrence of Slope

Ali estava ela. Rosto fechado, olhos tristes, e uma solidão a acompanhá-la naqueles minutos em que todos correm e ela procura a sombra que a torne invisível. A escola é um lugar de crianças que riem mas também é o inferno das que não sabem sorrir. Lá dentro, desenha-se a si própria como um elefante e diz que os elefantes são burros e não são especiais. Ela que é franzina sente-se um elefante. Apetece-me abraça-la mas sei que esse gesto a fragilizará ainda mais, engulo o gesto e descubro um menino que quer ser tartaruga para ter uma carapaça e poder ser lento, misturo-os com o gato tonto e rápido e espero que o mistério da brincadeira encontre um caminho para desenhar um sorriso numa cara que o perdeu. A história termina com um banquete e com uma frase: - Temos que saber ser amigos para encontrar a felicidade. Vamos improvisando saídas de emergência.

Tim Buckley - song to the siren

Quando é que sabemos se nos propusemos a mais do que suportávamos? Quando o choro supera o riso? Quando os braços não chegam? Ou quando se diz adeus baixinho? Amar largar ao largo no mar Perder prender no fundo e morrer. ( aos filhos que crescem voam caiem e tudo)

sábado, 15 de setembro de 2012

Filipa Pais - Praia das lagrimas

O nosso destino é o mar. mar adentro que a terra não nos acolhe. a nossa alma é de sal e lágrimas que o mar nos enrola e ondeia. o mar é a morte e o alimento somos uma praia de mulheres ao negro ocasos e gaivotas a rapinarem restos. o nosso destino é o mar que a terra não nos escolhe.

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Cocteau Twins - Crushed

Esmagados. Sem retórica, sem argumentos, sem horizonte Arde um imenso deserto, os filhos do deserto sofrem de miragens. Forças entregues à areia morna. Pressionados, espremidos.

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Crise pode criar uma "geração de crianças problemáticas" - JN

Crise pode criar uma "geração de crianças problemáticas" - JN

Vou chamar-lhes filhos da erosão.
Tenho dito isto em vários momentos.
Estão a sufocar o presente, o futuro não terá oxigénio suficiente.
Comprometer a vida das crianças e das suas famílias é uma forma de garantir que a desigualdade se perpetua.
Como Mãe, como mulher, como pessoa envolvida em projectos pedagógicos, peço coragem e determinação para pormos fim a este ciclo infernal de destruição, desmantelamento e sequestro da esperança. Não se pode educar um criança sem lhe dar um horizonte.

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Mumford and Sons - The Enemy Full Version (Wuthering Heights)

Gritei santuário dentro de um livro, por ora não suporto o horror. Nem é uma questão de covardia, apenas me repugnam os rostos do mal, não os decifro. Suspendo o gesto, arrecado o vocábulo e nado nas águas mais profundas.

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Arvo Pärt - Silentium

A minha geração é 'Cheap and Cheerful'

Chegados ao final da primeira década de um novo milénio, assumimos a devastação, a erosão e a fragmentação, lastros inevitáveis da conjugação entre o marxismo e o capitalismo liberal irregulado. Convém compreender que as guerras geram conservadores. Esta será uma ferramenta importante para interpretarmos o imobilismo ideológico dos últimos 50 anos na Europa. Habitua-mo-nos a olhar o mundo a partir de direitos garantidos, a lógica do wellbeing,wellfare,welliving, corresponde a esta ideia original do mundo ocidental, pós 2ª Guerra Mundial, de que a justiça social é o garante da acalmia, da ausência visível de conflitos. A minha geração é intrinsecamente conservadora, pretendeu limitar-se a gozar a herança, sendo esta herança composta pela paz, a liberdade de expressão, o conforto material, a pluralidade, o direito a , o direito a, o direito a, o direito a nada. Pois é, mas o capital soube compreender e aproveitar. Somos pasto tranquilo, ovelhas mansas, ceia de abutres ( somos devorados porque nos comportamos como mortos). A massa criativa é self-driven, bom precisa de atenção, de muita atenção, é carente de olhares ( e não me interessa nada ir ao Senhor Segismundo para saber porquês e outras inutilidades), assim sendo a sua intenção produtiva não depende de gatilhos exteriores, e é aqui que o senhor Arjo Klamer, um economista holandês, que já leccionou em várias universidades e que tem vários trabalhos sobre o valor das obras de arte perante a proliferação de suportes ( a desafectação do valor real e material versus a valorização subjectiva), vem declarar que nos comportamos como reles e alegres ( cheap and cheerful) A questão que se coloca nos dias de hoje à produção criativa não é a produção em si mas essencialmente aquilo que distancia artistas e potenciais públicos, e a questão da exibição, distribuição, ou seja a capacidade de penetrar no mercado. A proliferação de festivais, encontros, mostras cria eventos repetidos e com objectivos semelhantes, mas cada um tem como alvo um núcleo duro e raras vezes alarga o seu público, ao contrário do que seria de esperar, esta imensidão de acontecimentos não é um sinal de vitalidade é antes um sinal da existência na cultura, como no futebol, de várias ligas, o braço armado da indústria a criar tampões aos independentes, escudos em forma festiva. Imagino que esta ideia seja chocante, quer para quem se envolve nestes acontecimentos quer para quem acha que eles são um símbolo da miríade de opções estéticas da contemporaneidade.Não são, representam a exibição pública da condição de escravos a que nos remetemos. Os escravos devem ser mantidos no limiar da sobrevivência, entre o pão e o circo, para que jamais ousem questionar a sua condição. Estamos entretidos a matar as nossas fomes e enquanto isso ausenta-mo-nos da arena, e a arena é a coisa pública, a praça, o poder. Somos os escravos ideais, produzimos, contenta-mo-nos e não destruímos. Para nos emanciparmos teremos que resolver as, nossas necessidades de partilha e aceitação, suspender a motivação interior e lutar contra o nosso conservadorismo. Se não queremos ficar para a história como os "Cheap and cheerful" teremos que convocar as fúrias e desmanchar o palanque. Reinventar ágoras e assaltar castelos.

Cais - Elis Regina

Desenhos em arco.

Beirut: A Red Hot Loft Show

Vens comigo, se eu for para a rua? Vens comigo? Vens comigo, se eu for mar adentro? Vens comigo? Vens comigo, se eu gritar de raiva e fúria? Vens comigo? Vens comigo, se a minha cara for um poço e a minhas mãos uma adaga? Vens comigo? silêncio silêncio silêncio Ah... Não vale a pena. Aquieta-te que eu regresso depois, depois de viver eu regresso, e então, mortos os dois, poderemos enfim ficar quietos, quietos como os mortos. Vens comigo? ou já morreste?

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

I Found A Reason

O discurso mais aguardado ontem na Atalaia.

Bagão Félix afirma que Passos deu “machadada final no regime previdencial” - Política - PUBLICO.PT

Enquanto alguns ainda produzem afirmações entre a culpa, o pecado e o castigo esperado, ver aqui http://www.ionline.pt/portugal/joao-cesar-das-neves-pelos-disparates-fizemos-estamos-pagar-barato, outros já conseguem vislumbrar que nem para cumprir os propósitos troikikos estas medidas serão as adequadas.

Se o tom liberal comanda, então é inaceitável sobrecarregar os cidadãos com contribuições para serviços que o estado renega, ou que pretende cobrar dupla e triplamente.

Um país adepto do sadismo económico, povoado por pessoas que se deixam açoitar, aceito que cada um obtenha prazer como quiser, mas esta relação doentia está a ir longe demais.

Da Imaginação ao Inferno.

Imagina que não há paraíso É fácil se tentares Nada de inferno por baixo de nós E por cima apenas o céu Imagina todas as pessoas a viverem para o presente Imagina que não existem países Não é difícil fazê-lo Nada pelo qual morrer ou matar e também nenhuma religião Imagina todas as pessoas a viverem a vida em paz Podes dizer que sou um sonhador Mas não sou o único Espero que um dia te juntes a nós e que o mundo viva como um só Imagina que não existem posses pergunto-me se és capaz não ser necessário o sofrimento nem a fome uma irmandade de homens Imagina todas as pessoas a partilharem o mundo Mas não sou o único Espero que um dia te juntes a nós e que o mundo viva como um só E se este êxito de John Lenon fosse uma condenação anunciada? Viver apenas e só o hoje, ignorar o passado e temer o futuro, ir sobrevivendo aos dias. Sem país, sem razão para viver ou morrer,sem paraíso, sem religião, despidos de todos os pertences, sem redenção possível. Condenados ao presente.

sábado, 8 de setembro de 2012

Philip Glass - Movement II

SE olhares muito atentamente para a mais ínfima porção de qualquer coisa conseguirás olhar o universo.(

(Antony Gormley) Por estes dias há uma pergunta que persiste. O que nos torna humanos? A forma? O Espírito? A civilização? O sentido de comunidade? A cultura em constante debate com a natura? As construções? A imaginação? A guerra? A protecção dos mais frágeis? A ambição transformadora?. Não pretendo responder, a construção da humanidade tem sido uma constante encruzilhada, salpicada por passageiros momentos onde a abundância camufla o conflito. Dependendo do momento em que cada um nasceu, a narrativa acerca do presente, passado e futuro vem envolta pelas condições e condicionantes desse mesmo tempo de início. Tenho retomado, mentalmente, muitas histórias que a minha bisavó Hermínia me contava sobre a sua infância. A minha Bisavó nasceu em 1905, era a mais velha de cinco irmãos, numa Lisboa cheia de ruralidade ali nos lados dos Campos das lides ( Campolide). A minha Bisavó recordava-se de o seu Pai ter albergado em casa republicanos que vinham fugidos do Terreiro do Paço, era ela pequenita. A minha Bisavó levava para a escola Pão com dentes, esta era uma das suas brincadeiras ingénuas, o Pão sem nada era Pão com Dentes. Para mim que nasci em 1970 e que vi o consumismo embriagar as gentes que o tomaram por liberdade, estas narrativas eram tão longínquas como os Amores de Pedro e Inês, pertenciam ao universo do "há muito muito tempo". A caminhada em que julgámos estar envolvidos chegou ao momento penhasco, não é possível permanecer no cimo do penhasco, aproxima-se o outono, em breve o mar encapelado deixará de convidar ao mergulho refrescante. A subsistência da espécie humana deve-se ao seu desapego geográfico, quero com isto dizer que sobreviver e caminhar para outros lugares são preposições intimamente ligadas. A ilusão sedentária é em si provocadora de conflitos e de desajustamentos que conduziram à morte de algumas comunidades. Convém aqui distinguir ficção e ilusão, uma ficção é uma construção que parte da imaginação e que propõe lugares outros, paralelos, já a ilusão parte da construção racional desviada, pretende substituir o lugar real por um outro que é o mesmo mas em estado ilusório. As ilusões são sobretudo manipulações das narrativas,e são potencialmente perigosas. Abandonar ilusões sem desprezar as ficções, ou se quisermos, deixar a política para não desprezar a arte. Não proponho um traço único que confirme a nossa humanidade, mas arrisco afirmar que se fosse possível eleger um único, elegeria a Arte, a ficção, o mundo paralelo que não amputa o mundo sensorial, antes o amplia.

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

A agitação das crianças começa a ser uma característica transversal em toda a sociedade. Do ponto de vista cognitivo as crianças reconhecem e reproduzem as regras, no entanto parece existir um desapego afectivo pela utilização das mesmas, como se à compreensão oral não correspondesse a uma compreensão física dos princípios. Esta realidade terá múltiplas justificações, para os educadores o foco está nas famílias, na sua suposta demissão da tarefa educadora, para as famílias o foco aponta para a escola e para a sua suposta incapacidade em atender às necessidades diferenciadas das crianças. Vale a pena ir para além do arame farpado, a educação de uma criança implica, como diz um provérbio nigeriano, uma aldeia inteira, ora se as aldeias estão diluídas, se as comunidades são entidades fragmentadas e desempoderadas, como poderão as crianças desenvolver-se sem reflectir essa agitação? A agitação das crianças é o resultado do caos em que estamos mergulhados e que escolhemos ignorar, como se fosse possível ser livre para além da segurança. O movimento humano tem sido uma continuada busca por um equilíbrio entre a liberdade e a segurança, sendo que em determinados momentos é visível a preponderância de um sobre o outro, em momentos de grande liberdade a segurança ocupa um plano inferior, e vice-versa. Atravessamos um tempo complexo onde a segurança se tornou ilusória e a liberdade é atacada por uma arma poderosa e interna, o medo. Esta conjugação é o caldo que alimenta a diluição da consciência crítica. Digamos que o ser humano está preparado para prescindir de alguma liberdade se isso significar garantir a sua segurança, de igual modo, será capaz de comprometer a sua segurança se esse for o preço da liberdade, mas renunciar a ambas configura uma situação de abnegação sem recompensa na contemporaneidade. Esta é a tragédia do homem actual, o homem que desejou realizar-se no presente e se vê encurralado e sem futuros. As crianças não verbalizam esta angústia, expressam-na em pontapés, olhares desafiadores, desprezo pelas regras, falta de respeito pelo espaço e pelas pessoas, comportamentos disruptivos. Será demasiado simples catalogar tudo como má educação, a coisa é mais profunda e merece uma atenção que não se fique pelas imanências. Comecemos por reflectir acerca das fronteiras e competências dos intervenientes no processo educativo. Supondo que as crianças podem ser mapeadas como territórios e que as fronteiras podem ser asseguradas por vigilantes que não permitam a livre circulação de ideias e crenças entre a escola, a família e a comunidade, alguns especialistas defendem a separação entre educação e instrução, cabendo a primeira à família e a segunda à instituição escola. Mas esta separação funcional, parte de um pressuposto de divisão de tarefas que seria aplicável a máquinas mas que se torna complicada quando falamos de crianças, o território da escola já não é apenas a instrução, a escola democratizada e inclusiva, não se pode cingir a instruir, este é o nó cego das opções: se a escola quer dividir competências e atribuições com as famílias então terá que deixar do lado de fora todos aqueles cujas famílias não são capazes de cumprir a sua parte do contrato, se a escola se quer democrática e inclusiva então talvez tenha que equacionar outras funções. As famílias não possuem todas as mesmas capacidades, algumas até se poderiam substituir à escola no que à instrução concerne, outras são frágeis até no desempenho das suas competências como providenciadoras de sustento para os seus, mas a própria constituição consagra o direito à ajuda do estado, aliás no artigo 67 está claramente escrito que o estado deve “Cooperar com os pais na educação dos filhos”, quer isto dizer que a escola pública, enquanto instituição que representa no terreno esta cooperação entre o estado e as famílias, pode ajudar a superar as fragilidades das famílias. Esta lógica está longe de ser consensual, e ainda que o seja no plano material, creio que ninguém recusa que uma criança que não tenha capacidade financeira para adquirir manuais e materiais para a escola deve ser subsidiada pelo estado, muitos ainda discordam acerca do papel a desempenhar por cada um quando se trata do total desenvolvimento de uma criança, se no plano moral ela apresenta valores que não são compatíveis com a convivência em grupo e a frequência académica, até que ponto pode e deve a escola intervir? Esta é a pergunta que nos devemos colocar. Quando falamos de escola pública, falamos de uma instituição que tem por missão dotar crianças de diferentes classes, credos e raças com ferramentas cognitivas e sociais que lhes permitam crescer como cidadãos válidos, capazes de construir caminhos de felicidade para si em conjunto com outros. A escola pública sente de forma aguda todas as alterações sociais e económicas que ocorrem nas comunidades, e para que os vendavais não se transformem em furacões vai ser necessário reflectir e agir de acordo com os tempos e os modos, assumindo sem restrições esse papel cooperante, a bem da sociedade. Perante as demonstrações de violência, desordem, desrespeito, disfunção, parece tornar-se evidente que é urgente olhar a escola, o seu território físico e predominância do tempo que ocupa na vida das criança, como uma oportunidade de transformação, a não desperdiçar nesta complicada teia que é a humanidade, num momento crítico como aquele que vivemos. Mas não basta sobrecarregar professores com tarefas e atribuições, essa é uma visão redutora, a escola vai precisar de equipas que consigam responder no terreno, como tendas de campanha em tempos de guerra. Estamos debaixo de fogo e precisamos reinventar abrigos, se na idade média as igrejas eram o santuário, talvez, na época presente, as escolas sejam o seu equivalente, um lugar onde as crianças possam pedir protecção. Convidem artistas, cientistas, anciãos e artesãos, nadadores e carpinteiros, abram a escola, construam pontes, partilhem pão e sonho, vamos deixar as nossas crianças serem mais do que compostoras de conhecimentos alheios, deixemo-las produzir conhecimentos, descobrir na primeira pessoa, sujar as mãos de terra e de farinha e a ponta dos dedos de tintas, a escola baseada no contrato social que se impôs com a revolução industrial já não faz sentido, o sistema que a suportava está em desmoronamento. A ansiedade que as nossas crianças reflectem é um sinal de alarme, as consequências ao nível do desenvolvimento das suas capacidades poderão ser de tal forma demolidoras que as suas possibilidades de independência futura estejam a ser postas em causa. Esta ansiedade, traduz-se num clima de explosão/repressão que impõe um ciclo negativo e improdutivo para todas as partes. Para trabalhar em cooperação, e a cooperação será a melhor maneira de transpor barreiras, para o fazer será necessário incidir a montante e contrariar a cegueira da auto-preservação individualista, não quero com isto afirmar que as crianças devam prescindir da sua individualidade, mas terão que aprender a estabelecer zonas de intersecção com os outros para aprenderem a cooperar. Se a escola pública se quer democratizada e plural deverá ajudar a caminhar no sentido do trabalho em cooperação, ou então altere-se a missão da escola pública e excluam-se aqueles que não revelem aptidões sociais positivas, como está não poderá permanecer, sob pena de se transformar num espaço inútil e esvaziado de conteúdo.

O Arrebatamento de Elias

Este Arrebatamento de Elias é a melhor tradução para o que se passa neste início de milénio. Um convite ao abandono e a generosidade sobrevivente de abraçar o abismo incógnito.

terça-feira, 20 de março de 2012

Arrecada os meus silêncios e com eles escreve a palavra que escutares por dentro do teu sangue, a palavra latejante, a palavra aguda. No silêncio as aranhas tecem futuros. No exagerado ruído das bocas falantes as palavras morrem de pânico, uma vez pronunciadas resta-lhes a ausência.Deixa-me recostar no colo de palavras caídas.

Monteverdi - Ohimè, dov'è il mio ben

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Folhados de queijo Chèvre com oregãos e mel.


O título do blogue anuncia, Pão, bolos e Noradrenalina.
Os dias estão ásperos, o momento especial pode recuperar o seu lugar, o ritual pode largar a lenda e sentar-se à mesa, mesas que se querem de partilha e multiplicação.

1 embalagem de massa folhada fresca.
1 queijo chèvre.
2 gemas
150 ml de natas frescas
sal
pimenta
oregãos
12 gotas de mel.

Cortam-se 12 quadrados de massa folhada.
Colocam-se sobre papel vegetal, 12 pequenos quadrados. e sobre um tabuleiro de forno.
Batem-se as gemas com as natas, o sal, a pimenta e os oregãos.
Cortam-se 12 rodelas generosas de queijo.
deitam-se 2 colheradas da preparação de gemas e natas em cada quadrado de massa folhada.
Sobre o preparado coloca-se uma rodela de queijo chèvre.
Fecha-se o folhado em forma de embrulho, juntando os quatro cantos no centro.
Leva-se ao forno, médio, previamente aquecido, durante cerca de 12 minutos.
Serve-se quente com uma gota de mel e um copo de vinho tinto, Quinta da Pacheca, por exemplo.

Em defesa da divergência, contra a inevitabilidade.

Chegados a este momento, o ano de todas as inevitabilidades, creio ser pertinente avaliar, reflectir e questionar o curso das coisas da arte e da educação.
A ignorância e a inveja, aliadas ao senso comum, produzem na sociedade uma animosidade contra a comunidade artística. Uma animosidade que não é inocente nem desprovida de intenções.
Sem extrapolar para teorias da conspiração, é por demais evidente, a estratégia de debilitação premeditada do pensamento crítico, e como não poderia deixar de ser, este projecto obscurantista tem ramificações na nascente, ou seja, na educação.
Educar para a sensibilidade é muito mais do que adestrar para a exibição de truques, Educar para a Sensibilidade é todo um projecto de civilização.
Uma civilização que não partilha com as gerações mais novas, os seus marcos, as suas falências passadas, os seus golpes de génio, as suas obras de arte, a sua música, as imagens do tempo anterior, é uma civilização que não se reconhece e não se respeita.
A construção de uma caminhada entre a rivalidade tribal e a apregoada fraternidade comunitária, pressupõe um pensamento e uma acção em contínua busca por um equilíbrio, ou pelo menos o desejo manifesto desse equilíbrio, ainda que ele seja inatingível.
Quando se suspende o desejo por um mundo melhor, quando se restringe a porção de horizonte disponível, não é possível estruturar um pensamento sobre a educação, porque educar é preparar urdiduras para o futuro de tramas incertas.
A reboque da diabolização das áreas consideradas não estruturantes do saber, tem-se vindo a assistir ao diminuir da importância dos conteúdos não mensuráveis, e mais uma vez entra o senso comum, a aclarar escurecendo, medir, avaliar, pesar, quantificar não são a única forma de testar a eficácia de um saber ou de um labor.
Olhando para uma orquestra sinfónica compreendi várias coisas.
Compreendi que a afinação dos violinos depende do seu tocador e que o som é extraído dos tímbales através da percussão.
Aparentemente esta imagem não revela nada de transcendental, numa orquestra, como numa comunidade, existem vários naipes de instrumentos, cada um com um com um timbre e uma qualidade sonora próprias; mas talvez seja mais do que isso, talvez uma questão de opção, que som queremos escutar, que modelo de sociedade, que cidadãos queremos para o futuro?
As respostas a estas questões são como o Ph do solo, sem o sabermos não é possível definir as plantações possíveis, pode experimentar-se deitar sementes mas não se pode saber o que esperar.
Uma orquestra de Tímbales produz uma sonoridade com poucos cambiantes, não se pode esperar melodia, apenas ritmo, as variações são apenas na intensidade, pode percutir-se com mais ou menos força, e percutir quer mesmo dizer bater, ferir, golpear, produz som, é certo mas extraído pela acção de bater.
Uma orquestra de violinos, é uma orquestra de afinações individuais que se conjugam na produção de melodias em comum, o som não depende da força para ser extraído, antes da sensibilidade com que for tocado, da correcta tensão entre os dedos sobre as cordas e o desenho dos movimentos do arco, o som produzido resulta de um equilíbrio em construção permanente.
São caminhos distintos, ambições muito diferentes.
Ostracizar o potencial transformador da convivência com a arte é uma atitude ignorante e os cidadãos da Europa não deveriam aceitar passivos a amputação dos seus direitos de participação na cultura da sua comunidade.
A caminhada europeia fez-se de conflito, pontuada por pequenos intervalos pacíficos, ignorar as tensões existentes não as soluciona. Por diversas vezes, nessa caminhada, o norte se sentiu detentor da ética e recriminou o sul pela sua relação sensual com a vida, se olharmos para os movimentos da Reforma, se olharmos a história e a arte compreenderemos melhor o tempo que nos envolve.
Mas compreender não é aceitar, são movimentos distintos, compreender é olhar para além do episódio, aceitar é subordinar-se ao facto consumado.
Anuncia-se uma nova reforma curricular, supostamente ditada pela austeridade, daquelas que expurgará toda a inutilidade que parasita o sistema educativo. A coberto destas engenharias financeiras muitos projectos válidos irão encontrar sérias dificuldades de sobrevivência.
O modelo preconizado parece apontar para uma nova primazia do pensamento convergente, não deixa de ser curioso que num momento em que muitas estruturas produtivas da Europa estão em falência, se queira impulsionar de novo uma lógica de reprodução e imitação, tão ao gosto da industrialização do século XIX.
Aliando este retrocesso à degradação das condições de vida de milhões de pessoas poderíamos desenhar um cenário macabro, saído de uma qualquer ficção científica, com uma mensagem, nada subliminar, Resigna-te ou morre.
Desenganem-se os que consideram estas operações como inevitabilidades, aqueles que gostam de dizer frases como “ Isso é tudo muito bonito mas agora não há dinheirinho”, existe, isso sim, uma lógica de corporações a enquadrar as escolhas, em todas as áreas de actuação governamental.
Não existem inevitabilidades na governação, se existem, então estamos todos enganados quanto ao real valor da democracia, se os projectos de quem se propõe governar não são viáveis face à inevitabilidade, então o debate entre projectos é inútil e estéril, então a democracia é uma falácia, cujo objectivo é co-responsabilizar os cidadãos por decisões pré-determinadas.
As decisões correspondem a visões do mundo, mais ou menos distorcidas, mas existe sempre um quadro mental para estruturar as opções. O problema é não discutirmos esses quadros mentais, essas visões do mundo. É aí que precisamos intervir, pedindo explicações sobre o
modelo de sociedade humana subjacente à torrente de destruição a que temos vindo a assistir.
Defender a Educação para a Sensibilidade é defender uma estrada que já foi de terra, já se forrou de pedras, já se cobriu de alcatrão e que corre o risco de regressar à terra batida, esta estrada chama-se civilização ocidental, compreende a Europa e as suas ligações ancestrais, é terra mas também é narrativa, é um porto e um barco, um homem, um rinoceronte e as lendas, é um lugar e um caminho, pestes, mortes, invenções, pinturas, músicas, esculturas e tudo o mais que a humanidade consiga desejar e construir.
Continuar a defender uma Educação para a Sensibilidade é defender um modelo de sociedade em construção de um equilíbrio, difícil mas desejável.
Rita Tormenta.